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2026-05-15T15:08:24.000Z
O que está em jogo quando não sabemos cuidar?
Estamos vivendo uma transição silenciosa. A medicina curativa, que nos trouxe tantos avanços, já não dá conta sozinha da complexidade dos pacientes. A população envelhece, as doenças crônicas se acumulam, e o sofrimento se espalha — muitas vezes sem nome, sem linguagem e sem cuidado. E o sistema de saúde, tal como está estruturado, também já não sustenta esse modelo. Os custos aumentam, os serviços ficam sobrecarregados, e profissionais se esgotam tentando oferecer soluções para problemas que não cabem mais apenas na lógica da cura.
A maioria das pessoas que atendemos não vai morrer de forma súbita. Elas viverão com doenças crônicas, múltiplos sintomas e perdas em diversas dimensões: físicas, emocionais, sociais e espirituais. E, em algum momento, quase inevitavelmente, vai emergir uma pergunta que todo profissional de saúde precisa ser capaz de responder: como cuidar realmente bem de alguém que não pode mais ser curado?
Eu vejo essa pergunta como uma prioridade. E, por isso, ela precisa estar no centro da formação de quem se propõe a cuidar. Porque, cedo ou tarde, todo paciente vai precisar de ferramentas dentro da abordagem dos Cuidados Paliativos.
Perceba que o que está em jogo aqui não é apenas o manejo técnico de sintomas. É a qualidade da experiência do paciente diante do sofrimento mais difícil e a dignidade preservada ao longo da trajetória de uma doença grave. É a confiança — e a real satisfação — do paciente, da família e da equipe com o cuidado realizado, independente do desfecho. E talvez, enquanto lê este texto, você já esteja se lembrando de pacientes que precisariam — ou precisam — dessa forma de cuidado.
Talvez você pense: “Mas eu tenho empatia para cuidar do meu paciente em sofrimento, isto basta.” E isso é importante — mas não é o suficiente. Empatia sem preparo pode até ampliar o sofrimento. Ela precisa se transformar em decisão de formação. E não precisamos esperar que as estruturas mudem para mudar a nossa prática. Podemos começar agora, com disposição para aprender como cuidar.
Cuidar é saber diferenciar os limites técnicos e éticos de um tratamento. É saber o que dizer quando um paciente pergunta se vai morrer. É saber conversar sobre os valores do paciente e, diante do que é tecnicamente possível e permitido, tomar decisões adequadas. E mais: cuidar também é saber acompanhar o luto — o do paciente, o da família e, muitas vezes, o da própria equipe. Reconhecer o luto como parte do processo de cuidado é o que diferencia uma atuação que apenas trata da doença, de outra que sustenta a pessoa — até o fim, e mesmo depois.
Por isso, considero que se formar em Cuidados Paliativos é uma decisão ética. É assumir o compromisso de sustentar o cuidado da vida em todos os momentos.
Mas não basta qualquer formação. Cuidados Paliativos não se aprende apenas com teoria ou com qualquer metodologia de ensino. É preciso aprender com quem vive isso na prática — tanto no cuidado direto ao paciente quanto no cuidado com o profissional. Com quem entende os dilemas reais do dia a dia clínico e os impasses que ele carrega.
Este artigo é um convite. Um chamado para quem cuida e reconhece que não é possível oferecer um cuidado adequado sem escuta, sem presença e sem preparo. Para quem deseja ampliar o olhar, aprofundar a escuta e reconhecer que aprender a cuidar do sofrimento é parte essencial da medicina que queremos praticar.
Isso porque a frase ainda tão dita — “não há mais nada a fazer” — revela, na verdade, uma falta de formação, e não de possibilidades. E, enquanto isso, muitos profissionais adoecem por se sentirem impotentes. Pacientes se sentem abandonados.
Porque, no fim das contas, o que está em jogo é a vida — inclusive a do profissional que cuida.
Dra. Suelen Medeiros – Coordenadora de Pós-Graduação em Cuidados Paliativos Adulto.
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