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2026-05-15T14:59:39.000Z

Por que médicos deveriam estudar mais sobre idosos?

Você, como médico, se sentiria seguro ao cuidar de um paciente idoso, múltiplas comorbidades e usando 5 medicamentos diferentes? Muitos profissionais podem não estar preparados para isso.  

O envelhecimento da população é um dos fenômenos mais marcantes do século XXI. Em 1925 a expectativa de vida era algo em torno de 35 anos e em 2025, essa expectativa é de 76,8 anos. Até 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos deverá ultrapassar, pela primeira vez na história, o número de crianças abaixo de cinco anos. Diante desse cenário, uma pergunta se impõe com urgência: Por que tantos médicos ainda sabem tão pouco sobre o cuidado com idosos?  
A prática médica, tradicionalmente centrada em modelos aplicados a adultos jovens, nem sempre se adapta às especificidades do envelhecimento. O idoso não é simplesmente um adulto com mais anos de vida — ele traz consigo características fisiológicas, psicológicas e sociais que alteram completamente a forma de adoecer, responder a tratamentos e viver com saúde. Ignorar essas particularidades não apenas compromete a qualidade da assistência, como também aumenta riscos de iatrogenias, hospitalizações desnecessárias e perda de autonomia.  

Ao contrário do que muitos imaginam, envelhecer não é sinônimo de doença, mas é inegável que o risco de múltiplas condições crônicas aumenta com a idade. Além disso, os idosos frequentemente apresentam síndromes geriátricas — como quedas, incontinência, imobilidade e perda cognitiva — que escapam aos modelos tradicionais de diagnóstico. Esses quadros não costumam ter uma única causa, mas sim uma interação complexa entre vários fatores - ambientais, sociais, econômicos e de saúde. Um médico que não está preparado para reconhecer e manejar essas situações frequentemente se vê frustrado, com resultados aquém do esperado e, muitas vezes, com desfechos adversos evitáveis.  
Outro aspecto fundamental é a farmacologia no idoso. O que funciona bem em adultos de meia-idade pode ser tóxico em idosos devido às alterações na absorção, distribuição, metabolismo e excreção dos medicamentos. A polifarmácia, comum nesse grupo etário, aumenta exponencialmente o risco de interações medicamentosas, efeitos colaterais e quedas. Estudos mostram que boa parte das internações de idosos decorre de reações adversas evitáveis, muitas delas relacionadas a prescrições inadequadas. Conhecer os princípios da farmacologia geriátrica não é um luxo — é uma necessidade ética e técnica.  

O desafio, porém, não é apenas biológico. Cuidar de idosos exige sensibilidade para compreender contextos familiares, limitações funcionais e escolhas de vida. Muitas vezes, a decisão médica correta não é a que prolonga a vida a qualquer custo, mas aquela que prioriza conforto, autonomia e qualidade de vida. Saber conduzir conversas difíceis, planejar cuidados paliativos quando necessário e alinhar expectativas com pacientes e familiares é parte integrante da boa prática médica no envelhecimento.  
Além disso, há uma enorme oportunidade de impacto positivo. Médicos bem preparados para cuidar de idosos não só melhoram a vida dos seus pacientes da meia idade até a terceira idade, como também ajudam a desafogar sistemas de saúde, reduzindo internações evitáveis, complicações e custos. Estudos internacionais demonstram que modelos de atenção centrados no idoso — como consultórios geriátricos, programas de gestão de fragilidade e equipes multidisciplinares — não só oferecem melhor qualidade de cuidado, como são mais sustentáveis do ponto de vista econômico.  

Em resumo, estudar o envelhecimento não deveria ser visto como uma subespecialização restrita a poucos, médicos clínicos, médicos de família, anestesistas, cardiologistas, neurologistas, ginecologistas, necessitam de uma competência essencial para atuar de forma competente. O futuro da medicina — e da sociedade — é longevo. E cuidar bem dos idosos é, sem dúvida, cuidar bem do nosso próprio futuro.  


Dr. Luiz Antônio Gil - Coordenador de Pós-Graduação em Geriatria na Faculdade Sírio-Libanês 


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